A Dívida
Tem sido corrente se falar da Dívida. Hoje mais do que nunca, este termo que até 2008 estava confinado ao mundo económico-financeiro, caiu na boca do mundo. A Dívida, Pública ou Privada, é o tema do momento. Depois da avassaladora Crise Financeira ter posto à nu às fragilidades da economia real de alguns países, a comunicação social não dá tréguas à dita Crise da Dívida Pública e a escalada dos seus efeitos, dominó, já é de tal ordem que uma sondagem recente do Fórum Económico Mundial o aponta como sendo a tendência que terá maior impacto na economia global nos próximos 12 meses.
Depois da Crise Financeira ter atingido proporções globais, os investidores começaram a exigir rigor quanto à aplicação dos seus fundos, exigindo cada vez maiores taxas às entidades e governos cujas dívidas não dessem garantias evidentes e alavancadas na força produtiva interna. É assim que a Grécia, conhecida pelas dívidas profundas do seu sistema, comportamento fraudulento dos seus contribuintes e gastos descontrolados e não alinhados aos compromissos internacionais, nomeadamente acordos europeus, começa a sofrer quando lhe passa a ser cobrado cada vez mais caro um financiamento. Com a evolução da Crise Grega, a ameaça de extensão dos mesmos problemas a outros países, nomeadamente, Portugal e Espanha, levou a que estes rapidamente iniciassem um discurso de adopção de medidas de austeridade, como forma de mitigar os riscos e reduzir as necessidades de financiamento, procurando garantias de puderem fazer face aos seus compromissos correntes. Hoje estremece os países com economias menos estáveis da Zona Euro, como são os casos de Portugal, República da Irlanda, Itália e Espanha, cujas actuações estão focados na procura de reajustamentos das suas contas com medidas suplementares e na indagação de soluções para suas economias produtiva.
Têm sido colossais os esforços dos países desenvolvidos para trabalharem na sua Dívida. Hoje mais do que nunca estão focados nos riscos e na responsabilidade da Dívida. Este colosso que os países estão a gerir, tem sido árduo e com diferentes avanços e resultados alcançados. A Crise da Dívida da Zona do Euro é apenas a mais recente demonstração de como podem ser tóxicos as consequências que um país pode sofrer, quando a sua dívida é grande e o seu crescimento é fraco. Por isso, partilho convosco um olhar sobre a evolução da Dívida, tomando como fonte estudos da Mckinsey Global Institute.
EUA
Depois do pico das dificuldades enfrentado pelo povo americano, o comportamento das famílias nos EUA tem conduzido a que o endividamento das famílias tivesse caído em 584 Mil Milhões de Dólares, cerca de 4%, a partir do final de 2008 até o segundo trimestre de 2011. Esta redução está fortemente ligada a diminuição da dívida hipotecária e do crédito ao consumo, que representa cerca de 80% desta queda. Os americanos têm aumentado constantemente seus níveis de dívida nos últimos 60 anos, reflectindo o desenvolvimento de mercados de hipotecas, crédito ao consumidor, empréstimos estudantis, e outras formas de crédito. Depois de 2000, o rácio da dívida das famílias disparou, ultrapassando a linha de tendência em mais de 30%. No entanto, a boa nova é que a partir do segundo trimestre de 2011, essa proporção caiu já 11%, dando fortes indicações em como no ritmo actual poderemos voltar a tendência do passado, em meados de 2013.
REINO UNIDO
Embora podemos dizer de que no Reino Unido as famílias também reduziram a sua Dívida, também é verdade de que esta diminuição é mais tímida de que a ocorrida nos EUA, continuando mesmo este rácio a ser significativamente maior do que nos EUA, no pico da bolha. Aqui, a Dívida das famílias em circulação caiu menos de 1%, mas as hipotecas residenciais continuaram a crescer, embora num ritmo mais lento do que antes de 2008. Desta forma tem-se compensado parte da quebra de mais de 25 biliões de libras ocorridos no crédito ao consumo. Embora, o Banco Central britânico alerta para o facto de muitas hipotecas residenciais no Reino Unido poderem estar em apuros. Segundo o Banco de Inglaterra cerca de 12% podem estar em tolerância ou contenciosos, e um adicional de 2% são não cobráveis. Portanto, este processo de tolerância tranquila no Reino Unido, combinado com o recorde de baixa de taxas de juros, podem estar a mascarar riscos significativos que certamente atacaram mais à frente. É verdade que os pagamentos da dívida das famílias do Reino Unido são um terço maior do que os dos seus homólogos nos EUA e 10% mais elevado do que eram em 2000, antes da bolha. Esta estatística é particularmente problemática, porque, pelo menos, dois terços de hipotecas do Reino Unido têm taxas de juros variáveis, que expõem os mutuários para o potencial de subida das taxas de juros no pagamento das suas dívidas. No Reino Unido, urge se proporcionar a redução da Dívida das famílias de forma constante, embora respeitando o tradeoff de não sufocar o crescimento no consumo, que continua a ser o factor crítico do PIB no Reino Unido.
ESPANHA
Em Espanha, desde a crise de crédito, o endividamento das famílias caiu 4% e as acções em circulação da dívida das famílias 1%. Tal como no Reino Unido, as hipotecas e outras formas de crédito continuaram a crescer enquanto o crédito ao consumo caiu acentuadamente. Se por um lado é verdade este crescimento das hipotecas, também é certo de que o número de situações em tolerância e contencioso tem aumentado desde a eclosão da crise. Portanto, mais problemas podem estar adiante. Aqui, cerca de metade das famílias com remuneração mais baixa, com crédito hipotecário, tem nesses custos mais de 40% das suas remunerações, em comparação com pouco menos de 20% para as famílias de baixa renda dos EUA. Enquanto isso, a taxa de desemprego em Espanha é agora de cerca de 21,5%, muito acima dos 9% de 2006. Em Espanha, ao contrário da maioria de outras economias desenvolvidas, os níveis de endividamento das empresas subiram acentuadamente na última década, principalmente, devido a baixa significativa das taxas de juros, após o país aderir à zona euro. Em Espanha, hoje as empresas detêm em dívida o dobro da produção nacional, exactamente igual às empresas dos EUA e seis vezes mais do que as empresas Alemãs. Assim, parece lógico ter que vir a ocorrer alguma redução da Dívida das empresas, nos próximos anos.
RECUPERAÇÃO – Exemplo da Finlândia, Suécia e Coreia do Sul
Gerir e reduzir a Dívida, assim como desenvolver a economia nacional produtiva, em simultâneo, é fundamental para o estabelecimento das fundações de uma economia, com base num crescimento sustentável, a médio e longo prazo. As economias têm de enfrentar este duplo desafio. Bons exemplos da história oferecem-nos lições importantes. Assim, proponho que relembremos os casos da Finlândia e da Suécia, ocorridos na década de 1990, e da Coreia do Sul após a crise financeira de 1997. Todos estes países tiveram situações semelhantes. No caso, a desregulamentação bancária (ou fraca regulação), o que levou a um boom de crédito, que por sua vez alimentou as bolhas de activos imobiliários e outros. Quando entraram em colapso, essas economias caíram numa profunda recessão, e os níveis das suas dívidas caíram. Nos três países, o crescimento económico era essencial para completar um processo de deleveraging a 5 ou 7 anos.
É verdade de que não economias iguais muito menos com mesmo processo de deleveraging. No entanto, quer a Finlândia, Coreia do Sul e Suécia tinham nas exportações uma forma de procurar e melhorar o crescimento económico. Também é verdade de que nas Economias de hoje para além da sua dimensão ser maior, os seus processos enfrentam circunstâncias mais difíceis. Ainda assim, a experiência histórica sugere cinco perguntas que os líderes empresariais e do governo devem considerar como forma de avaliarem as economias e as suas direcções, assim como permitir melhor definição de prioridades.
Estabilidade do Sistema Bancário
Na Finlândia e Suécia, os bancos foram recapitalizados e alguns chegaram a ser mesmo nacionalizadas. Na Coreia do Sul, alguns foram fundidos e outros fechados, e os investidores estrangeiros, pela primeira vez, tiveram o direito de poderem se tornar investidores maioritários nas instituições financeiras do país. Por outro lado, resoluções decisivas quanto aos créditos de risco e mal parados foram fundamentais para o arranque da fase de recuperação económico.
Hoje, o sector financeiro tem merecido particular atenção, principalmente a partir de 2009, no entanto, é certo de que os bancos irão precisar aumentar os seus capitais nos próximos anos para cumprir Basileia III e regulamentações nacionais. Na maioria dos países europeus, a procura de crédito pelas empresas está em queda ou lento crescimento, mas até à data, a oferta de crédito, ainda não foi seriamente restringida. Provavelmente, a continuação da crise da zona do euro, representará um risco de uma contracção de crédito significativo em 2012 se os bancos forem obrigados a reduzir os empréstimos numa fase de restrições de financiamento. Como um deleveraging forçado irá prejudicar significativamente a capacidade da região fugir da recessão.
Reformas Estruturais
Na década de 1990, cada um dos países em crise embarcou em um programa de reforma estrutural. Para a Finlândia e Suécia, a adesão à União Europeia levou a maiores economias de escala e maior investimento directo. Por outro lado a desregulamentação em indústrias específicas, como é o caso do retalho, também desempenharam um papel importante. Na Coreia do Sul também se seguiu um curso semelhante, isto é, reestruturou-se o sector empresarial em grandes conglomerados, o famoso Chaebol, e abriu-se a economia de uma forma ampla para o investimento directo estrangeiro. Estas reformas desencadearam o crescimento através do aumento da concorrência na economia e levando as empresas a aumentar sua produtividade.
As economias mais problemáticas de hoje precisam de reformas adaptadas às circunstâncias de cada país. Por exemplo, nos Estados Unidos, merece atenção a necessidade de simplificação e aceleração das aprovações regulações do investimento empresarial, em especial com relação ao capital e empresas estrangeiras. No Reino Unido deve-se atender ou rever o planeamento e normas de territoriais para permitir a expansão e crescimento das cidades bem sucedidas e acelerar a construção de casas. Espanha deve simplificar drasticamente as regulamentações a volta dos negócios, facilitar a criação de novas empresas, melhorar a produtividade, fomentar a reforma das leis laborais. Tais mudanças estruturais são particularmente importantes para a Espanha, porque as restrições fiscais no quadro da União Europeia impõe ao país limites e contenções da sua Dívida Pública, para estimular a economia. Além disso, como parte da zona do euro, a Espanha não tem a opção de desvalorização cambial para estimular o crescimento das exportações
Exportações
Na Suécia e na Finlândia, as exportações cresceram cerca de 10% ao ano, entre 1994 e 1998. Esta evolução foi impulsionada por empresas exportadoras e pelas desvalorizações da moeda ocorridas durante a crise (34% na Suécia 1991-1993). Desvalorização de 50% da moeda da Coreia do Sul em 1997, ajudou o país aumentar sua participação nas exportações em produtos electrónicos e automóveis.
Hoje, mesmo que as exportações, por si só, não sejam suficientes para estimular uma recuperação ampla, são sempre importantes contribuintes para o crescimento das economias. Especialistas têm recomendado que os decisores políticos resistam ao proteccionismo. As exportações de serviços, incluindo aquelas "ocultas" que os estudantes estrangeiros e turistas geram, podem vir ser chave para o crescimento das exportações no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Investimento Privado
Um elemento importante no crescimento na Finlândia, Suécia e Coreia do Sul foi a rápida expansão do investimento privado. Na Suécia, aumentou 9,7% ano durante a recuperação económica que começou em 1994. Adesão à União Europeia fazia parte do ímpeto. Algo semelhante aconteceu na Coreia do Sul depois de 1998, com a queda das barreiras ao investimento directo do estrangeiro. Estes influxos crescentes ajudaram a compensar o consumo privado.
Hoje, dadas as actuais baixas taxas de juros no Reino Unido e nos Estados Unidos, não há melhor momento para se investir. Principalmente, na infra-estrutura, onde existem amplas oportunidades para renovar as redes de energia e de transporte, já em envelhecimento nesses países. Com financiamento público limitado, o sector privado pode desempenhar um papel importante, se as estruturas de preços e regulamentares permitem às empresas obterem um retorno justo.
Crédito a Habitação
Em todos os casos apresentados, o mercado da habitação estabilizou e só começou a se expandir novamente como a recuperação da economia, assim como nos países nórdicos, o mercado de capital também se recuperou. Este desenvolvimento forneceu apoio adicional para uma taxa sustentável de crescimento do consumo aumentando ainda mais o "efeito riqueza" sobre os balanços das famílias. Nos EUA, sem a estabilização dos preços, uma recuperação mais forte do PIB, será difícil, dado que a construção de imóveis residenciais contribuíram sozinhos com cerca de 5% do PIB antes da bolha imobiliária. Por outro lado, habitação também estimula a procura dos consumidores por bens duráveis como electrodomésticos e móveis e, portanto, impulsiona a venda e fabricação desses produtos.
ALERTA
Numa altura em que a recuperação económica é urgente, a crise da zona Euro ameaça a acelerar, a confiança nos negócios e no sector financeiro está em baixo, pode ser tentador para os governante e executivos seniores ficarem sentados à espera de melhores condições macro económicas envolventes, que lhes parece estar para além do controlo de qualquer pessoa. Esta abordagem seria um erro também ele colossal. Os líderes empresariais que entendem os sinais, e os líderes dos governos que saibam estabelecer condições prévias para o crescimento, podem fazer a diferença para os seus próprios resultados e para a economia global.
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Wednesday, February 8, 2012
Wednesday, January 25, 2012
Made in Crise
Made in África
CRISE SÉCULO XIV
Convido-lhe a viajar comigo no tempo e a fazer uma análise diacrónica e sincrónica dos factos. Embarquemos ao Século XIV onde a famosa Crise deste século surge como uma locução que marca um conjunto de factores e eventos ocorridos cuja natureza e amplitude fez acelerar a decadência do feudalismo e o fim da Idade Média, na Europa Ocidental. Nesta altura, os motivos que determinaram este período negro da história Europeia tinham diversas origens, embora se possa afirmar que teve origem na época em que não havia novas terras a serem ocupadas, o que conduziu a estagnação da produção. No sistema feudal uma maior produção significava anexar novas terras. Com a produção estancada e uma população cada vez maior, a fome se espalhou pela Europa. Por outro lado, ocorreu as destruições de florestas e do meio ambiente que já vinham do século XII, tendo como consequência uma série de mudanças climáticas, como por exemplo as ditas severas chuvas ocorridas. Assim, a Europa se tornou vulnerável às doenças, nomeadamente à Peste Negra, dado se encontrar devastada pela fome. Como se já não bastasse, as guerras, como a Guerra dos Cem Anos, também agravou a situação. Causou grande queda demográfica. Desta forma haviam menos pessoas para trabalhar, o que conduziu a que os nobres impusessem uma maior carga de trabalho sobre os camponeses, o que gerava revoltas populares como a Jacquerie e a Revolta camponesa de 1381.
ERA DOS DESCOBRIMENTOS
Depois deste quadro dramático, logo ao virar do século, dá-se aquilo que todos conhecemos como a Era dos descobrimentos (ou das Grandes Navegações). Período em que ocorreu uma grande e sagaz exploração Europeia ao globo terrestre, em busca constante de novas rotas de comércio. É assim que entre os séculos XV e XVII os Europeus estabeleceram relações com África, Américas e Ásia, em busca de uma rota alternativa e movidos essencialmente pelo comércio de ouro, prata e especiarias. A exploração europeia perdurou por muito tempo, até a consolidação e realização do mapeamento global do mundo. Esta Era dos Descobrimentos consubstanciou-se no marco da passagem do feudalismo da Idade Média para a Idade Moderna, levando à ascensão dos estados-nação Europeus. Esta expansão no exterior levou ao surgimento dos impérios coloniais, com um contacto entre o Velho e o Novo Mundo na produção do chamado Columbian Exchange, que envolveu a transferência de plantas, animais, alimentos e populações humanas (incluindo escravos), doenças transmissíveis e culturas entre os hemisférios ocidental e oriental, naquilo que deverá ser o maior e mais significativo evento global da ecologia, agricultura e cultura da história da humanidade.
GLOBALIZAÇÃO E CRISES
Prosseguindo a nossa viagem, hoje assistimos a tão proclamada globalização financeira, cuja definição podemos entender como um vivo processo de interligação de mercados, principalmente de capitais, aos níveis nacionais e internacionais, o que tem levado ao actual mercado unificado do dinheiro à escala planetária. A globalização financeira inscreve-se num processo histórico longo e complexo, que levou à mundialização da economia. As suas causas são múltiplas, de ordem política, demográfica e tecnológica. No entanto, entendo que fundamentalmente, todas elas podem ser resumidas como simples razões de mercado. Ou se quiser, de Crise, tal como entendida no século XIV na Europa, ou qualquer outra. Esta é a razão do efeito dominó que hoje conhecemos da Crise Económica e Financeira actual. Pode parecer que esta analogia seja de alguma forma pesada, mas talvez não o seja assim tanto. Se não vejamos. A evolução da demografia nos países mais ricos tem contribuído fortemente, ou não, para as mutações financeiras mundiais? Creio sermos unânimes na afirmação que sim. Pois, todos recordamos de que no período pós-guerra, os países desenvolvidos conheceram um relevante choque demográfico, como foi o baby-boom, que se traduziu num aumento temporário da fecundidade e da natalidade, que originou uma explosão de natalidade, particularmente importante para a dinâmica dos outrora denominados de "Trinta gloriosos". Naturalmente, com a contagem natural e previsível, estes países começaram a sofrer a partir da primeira década do século XXI, o contra-choque demográfico, produto do mesmo evento, ou seja, a passagem destes bebés à terceira-idade. Hoje o envelhecimento das suas populações resulta, essencialmente, da diminuição da fecundidade para níveis anteriores ao do baby-boom, a chegada à idade da reforma das gerações nascidas no baby-boom e o aumento da esperança de vida que em cinquenta anos passou de 63 para 75 anos para os homens e de 68 para 82 anos para as mulheres. Como diria o Professor Dominique Plihon começou-se a assistir ao papy-boom.
Em resposta à esta Crise dos Grandes, surge a Globalização ou Mundialização. Estes fenómenos complexos, conduzem a que se abranja uma grande diversidade de processos. Primeiro, corresponde à abertura das economias nacionais às transacções internacionais ao desenvolvimento das trocas de bens e serviços numa dimensão sem fronteiras. Num segundo nível, ela conduz à mobilidade internacional dos factores de produção, e mais particularmente à dos capitais, ou seja à globalização financeira. Não menos importante, ou se não mesmo o vector mais importante desta dinâmica estão os ditos movimentos internacionais de capitais, particularmente pelos investimentos directos no estrangeiro (IDE), realizados pelas empresas multinacionais. Desta forma, a globalização afirma-se como um processo de interpenetração crescente das economias nacionais, tendendo, a reduzir progressivamente o papel das fronteiras, a enfraquecer as regulações nacionais e a desterritorializar as actividades económicas. Mais do que a parte evidente, de uma internacionalização da economia, trata-se de uma globalização de processos de produção e de mercados, com espaços integrados e empresas que se tornam players globais, cujas decisões e comportamentos parecem escapar a qualquer consideração nacional, levando mesmo a ditar a leis aos responsáveis políticos numa dimensão global.
Hoje é inequívoco a força motora da globalização financeira. Este criou já o seu próprio Estado, multinacional e repleta de estruturas, poder de influência e método na intervenção. O poder do Estado Mundial e Global do sistema financeiro é exemplo disso. Elaborada e materializada através do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE) e a Organização Mundial do Comércio, ela é omnipresente e soberana perante poderes originais de Estados e comunidades. Neste domínio, das finanças, é onde a globalização dos mercados é mais acentuada, com uma mobilidade de fluxos financeiros perto da perfeição e à escala planetária.
ÁFRICA
Façamos a última parte da nossa viagem dentro do nosso continente. África. Numa perspectiva diacrónica e sincrónica, principalmente centrada sobre a última década, importa ficar claro de que o continente Africano foi dos que mais cresceu no mundo, entre 2001 e 2008, com o alcance de um crescimento médio de 5,6% ao ano. Este período, embora marcado pela evolução da crise mundial e um papel desempenhado ainda pelo Boom dos commodities, nem por isso impactou um sustentado e impressionante crescimento, estribado na evolução da estabilidade no quadro macroeconómico, acompanhado de reformas estruturais, incluindo a privatização de empresas estatais e redução de barreiras à concorrência. Esta dinâmica conseguiu ainda mobilizar um grande aumento da quantidade de investimentos directos do estrangeiro, que mais do que triplicou durante esses anos. Particular destaque para os provenientes das entradas dos países emergentes do Golfo e da Ásia (China e Índia). A McKinsey Quartely em Junho de 2010 chegou mesmo a publicar um artigo de Paul Collier, professor de economia na Universidade de Oxford, onde o mesmo trouxe o caso do Investimento em África, referindo no título de que o continente estava a crescer muito mais rapidamente do que as nações da OCDE e que se podia eventualmente estar à beira de um regresso às fortunas.
Países ricos em recursos naturais como a Nigéria e a África do Sul, têm sido na década os que mais receberão IDE (investimento directo estrangeiro), embora hoje no nosso grande continente começa a emergir novos padrões, ainda que recentes e provenientes dos últimos cinco anos. No leste e norte da África, por exemplo, novos investimentos crescem em sectores que não carecem de recursos naturais, como o turismo, manufactura, serviços financeiros, telecomunicações e construção. Além disso, um segundo nível de países menores, mas de alto desempenho, incluindo o Gana, Namíbia e Zâmbia, têm merecido particular atenção dos investidores. Esta dinâmica África da última década, em resume, tem assistido a uma diversificação do IDE, em paralelo com uma série de reformas estruturais levados a cabo pelos governos Africanos, para tornar suas economias mais atraentes e competitivas. Naturalmente, para sustentar os fluxos de IDE os governos devem buscar medidas para o reforço dos quadros de governação e legal, construção de mercados financeiros, investimento em capital humano, desenvolver as suas infra-estruturas e aprofundar a integração regional. Com estes dados não evito dizer que também seja verdade de que o continente foi atingido pela Crise Financeira global, tanto que o seu crescimento em 2009 desacelerou para 2,5%. Mas, posso afirmar que a história do mundo global tem feito com que África evite a recessão. Embora também seja verdade de que o impacto da crise esteja a variar de entre regiões e países, a verdade é que no geral o declínio do crescimento está sendo menos grave do que o esperado. Por exemplo, em contraste com outras partes do continente, a África Austral tem sido directamente afectada pela crise global, porque os seus países, embora ricos em recursos, estão dependentes das exportações e sujeito ao "efeito vizinhança" que emana da África do Sul. Acredita-se que muitos desses países devem recuperar brevemente com a recuperação dos commodities e melhorias nos mercados financeiros. O grupo de países de rendimento médio do norte da África, apesar de sua estreita integração com a União Europeia, tem-se saído melhor, em parte devido à sua menor contas de capital aberto e economias mais diversificadas.
Também é verdade de que os formuladores das políticas africanas têm resistido as tendências proteccionistas que muitas vezes acompanham uma crise desta magnitude. Em vez disso, a maioria dos países têm mantido uma postura macroeconómica prudente durante esta crise actual, evitando as medidas proteccionistas, e em vários casos, acelerando as reformas para criar um clima favorável ao investimento. Alguns países, como Botswana, Gana Cabo Verde e Seicheles, aproveitam dos pacotes de ajuda financeira para ajustar as suas economias de forma significativa. Embora tendo resistido à crise, o continente enfrenta o desafio de voltar rapidamente ao crescimento elevado e sustentável. Em Março de 2010, o Banco Africano de Desenvolvimento fez a previsão de 4,5% de crescimento do PIB real para África em 2010 e 5,2% em 2011, em linha com a recuperação global. Embora essas taxas de crescimento estejam ainda abaixo dos níveis pré-crise, a recuperação tem uma base larga, com mais de 15 países projectado para crescer por cima de 5% em 2010. Resta ver se a recuperação nas economias avançadas, é de facto um factor fundamental na recuperação da própria África. Por isso, é ainda mais importante que os países Africano criem hoje um clima económico e de negócios para atrair criar fluxos de capital privado internos e estáveis.
Embora exista um crescimento da África, quando medido em termos de crescimento do PIB percapita, ela é mais moderada. A pergunta chave é quando é que a remuneração do povo africano atingirá níveis comparáveis aos países mais ricos? Quando é que teremos um crescimento sustentável que nos permita reduzir as enormes disparidades de remuneração e de produtividade, face às economias mais avançadas? Infra-estrutura pobre é um grande impedimento. Um estudo recente de 24 países, conduzido pelo Banco Africano de Desenvolvimento, estimou o custo total da lacuna de infra-estruturas em África para a próxima década, no valor de 93 mil milhões de dólares americanos por ano, com cerca de 40% no sector de energia. Descobriu-se ainda de que o continente tem a mais fraca infra-estrutura do planeta, e que os Africanos, em alguns países, estão a pagar o dobro por serviços básicos, em comparação aos cidadãos de outros continentes. Por outro lado, apesar de algum progresso, na criação de um ambiente para desenvolvimento do sector privado, mais pode ser feito para que se atinja um crescimento importante, principalmente com relação à criação de bases de capital nacionais.
Dadas as fraquezas dos países Africanos, e as falhas de mercado, o desenvolvimento de um sector privado vibrante não pode ser deixado só ao livre mercado. Experiência mundial tem mostrado a sua importância. O apoio institucional dos governos Africanos não pode ser apenas no ambiente de negócios, pois, esta e a sua melhoria é apenas uma das muitas outras condições para o crescimento do sector privado. Países como o nosso, a semelhança de outros Africanos, têm pequenas bases produtivas. O desenvolvimento do sector privado envolve muitas vezes a entrada em actividades completamente novas, inovadoras, que naturalmente incorrem a grandes investimentos e custos fixos, assim como riscos. Os agentes privados não podem os assumir sozinhos. Em África, ou desenvolvemos uma Política industrial que visa incentivar as actividades mais rentáveis e flexibilizar as restrições ao empreendedorismo produtivo nacionais, ou incorremos à nova vaga dos Descobrimentos, atando-nos como reféns do capital instalado, que impacta na descolagem dos nossos países, pela via da ausência de sectores privados, nacionais.
O Banco Africano de Desenvolvimento elevou a sua capacidade para financiar empresas privadas e parcerias público-privadas. Durante os últimos anos, aprovou o financiamento não soberano, incluindo cerca de 15% no capital próprio, para um total de USD $ 4,7 bilhões, para projectos, principalmente, em serviços de infra-estrutura e financeiros. África continua a oferecer inúmeras oportunidades para os investidores no mundo pós-crise, com as opções tão variadas quanto os países.
Em Cabo Verde, Investidores? Eu que o diga.
CRISE SÉCULO XIV
Convido-lhe a viajar comigo no tempo e a fazer uma análise diacrónica e sincrónica dos factos. Embarquemos ao Século XIV onde a famosa Crise deste século surge como uma locução que marca um conjunto de factores e eventos ocorridos cuja natureza e amplitude fez acelerar a decadência do feudalismo e o fim da Idade Média, na Europa Ocidental. Nesta altura, os motivos que determinaram este período negro da história Europeia tinham diversas origens, embora se possa afirmar que teve origem na época em que não havia novas terras a serem ocupadas, o que conduziu a estagnação da produção. No sistema feudal uma maior produção significava anexar novas terras. Com a produção estancada e uma população cada vez maior, a fome se espalhou pela Europa. Por outro lado, ocorreu as destruições de florestas e do meio ambiente que já vinham do século XII, tendo como consequência uma série de mudanças climáticas, como por exemplo as ditas severas chuvas ocorridas. Assim, a Europa se tornou vulnerável às doenças, nomeadamente à Peste Negra, dado se encontrar devastada pela fome. Como se já não bastasse, as guerras, como a Guerra dos Cem Anos, também agravou a situação. Causou grande queda demográfica. Desta forma haviam menos pessoas para trabalhar, o que conduziu a que os nobres impusessem uma maior carga de trabalho sobre os camponeses, o que gerava revoltas populares como a Jacquerie e a Revolta camponesa de 1381.
ERA DOS DESCOBRIMENTOS
Depois deste quadro dramático, logo ao virar do século, dá-se aquilo que todos conhecemos como a Era dos descobrimentos (ou das Grandes Navegações). Período em que ocorreu uma grande e sagaz exploração Europeia ao globo terrestre, em busca constante de novas rotas de comércio. É assim que entre os séculos XV e XVII os Europeus estabeleceram relações com África, Américas e Ásia, em busca de uma rota alternativa e movidos essencialmente pelo comércio de ouro, prata e especiarias. A exploração europeia perdurou por muito tempo, até a consolidação e realização do mapeamento global do mundo. Esta Era dos Descobrimentos consubstanciou-se no marco da passagem do feudalismo da Idade Média para a Idade Moderna, levando à ascensão dos estados-nação Europeus. Esta expansão no exterior levou ao surgimento dos impérios coloniais, com um contacto entre o Velho e o Novo Mundo na produção do chamado Columbian Exchange, que envolveu a transferência de plantas, animais, alimentos e populações humanas (incluindo escravos), doenças transmissíveis e culturas entre os hemisférios ocidental e oriental, naquilo que deverá ser o maior e mais significativo evento global da ecologia, agricultura e cultura da história da humanidade.
GLOBALIZAÇÃO E CRISES
Prosseguindo a nossa viagem, hoje assistimos a tão proclamada globalização financeira, cuja definição podemos entender como um vivo processo de interligação de mercados, principalmente de capitais, aos níveis nacionais e internacionais, o que tem levado ao actual mercado unificado do dinheiro à escala planetária. A globalização financeira inscreve-se num processo histórico longo e complexo, que levou à mundialização da economia. As suas causas são múltiplas, de ordem política, demográfica e tecnológica. No entanto, entendo que fundamentalmente, todas elas podem ser resumidas como simples razões de mercado. Ou se quiser, de Crise, tal como entendida no século XIV na Europa, ou qualquer outra. Esta é a razão do efeito dominó que hoje conhecemos da Crise Económica e Financeira actual. Pode parecer que esta analogia seja de alguma forma pesada, mas talvez não o seja assim tanto. Se não vejamos. A evolução da demografia nos países mais ricos tem contribuído fortemente, ou não, para as mutações financeiras mundiais? Creio sermos unânimes na afirmação que sim. Pois, todos recordamos de que no período pós-guerra, os países desenvolvidos conheceram um relevante choque demográfico, como foi o baby-boom, que se traduziu num aumento temporário da fecundidade e da natalidade, que originou uma explosão de natalidade, particularmente importante para a dinâmica dos outrora denominados de "Trinta gloriosos". Naturalmente, com a contagem natural e previsível, estes países começaram a sofrer a partir da primeira década do século XXI, o contra-choque demográfico, produto do mesmo evento, ou seja, a passagem destes bebés à terceira-idade. Hoje o envelhecimento das suas populações resulta, essencialmente, da diminuição da fecundidade para níveis anteriores ao do baby-boom, a chegada à idade da reforma das gerações nascidas no baby-boom e o aumento da esperança de vida que em cinquenta anos passou de 63 para 75 anos para os homens e de 68 para 82 anos para as mulheres. Como diria o Professor Dominique Plihon começou-se a assistir ao papy-boom.
Em resposta à esta Crise dos Grandes, surge a Globalização ou Mundialização. Estes fenómenos complexos, conduzem a que se abranja uma grande diversidade de processos. Primeiro, corresponde à abertura das economias nacionais às transacções internacionais ao desenvolvimento das trocas de bens e serviços numa dimensão sem fronteiras. Num segundo nível, ela conduz à mobilidade internacional dos factores de produção, e mais particularmente à dos capitais, ou seja à globalização financeira. Não menos importante, ou se não mesmo o vector mais importante desta dinâmica estão os ditos movimentos internacionais de capitais, particularmente pelos investimentos directos no estrangeiro (IDE), realizados pelas empresas multinacionais. Desta forma, a globalização afirma-se como um processo de interpenetração crescente das economias nacionais, tendendo, a reduzir progressivamente o papel das fronteiras, a enfraquecer as regulações nacionais e a desterritorializar as actividades económicas. Mais do que a parte evidente, de uma internacionalização da economia, trata-se de uma globalização de processos de produção e de mercados, com espaços integrados e empresas que se tornam players globais, cujas decisões e comportamentos parecem escapar a qualquer consideração nacional, levando mesmo a ditar a leis aos responsáveis políticos numa dimensão global.
Hoje é inequívoco a força motora da globalização financeira. Este criou já o seu próprio Estado, multinacional e repleta de estruturas, poder de influência e método na intervenção. O poder do Estado Mundial e Global do sistema financeiro é exemplo disso. Elaborada e materializada através do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE) e a Organização Mundial do Comércio, ela é omnipresente e soberana perante poderes originais de Estados e comunidades. Neste domínio, das finanças, é onde a globalização dos mercados é mais acentuada, com uma mobilidade de fluxos financeiros perto da perfeição e à escala planetária.
ÁFRICA
Façamos a última parte da nossa viagem dentro do nosso continente. África. Numa perspectiva diacrónica e sincrónica, principalmente centrada sobre a última década, importa ficar claro de que o continente Africano foi dos que mais cresceu no mundo, entre 2001 e 2008, com o alcance de um crescimento médio de 5,6% ao ano. Este período, embora marcado pela evolução da crise mundial e um papel desempenhado ainda pelo Boom dos commodities, nem por isso impactou um sustentado e impressionante crescimento, estribado na evolução da estabilidade no quadro macroeconómico, acompanhado de reformas estruturais, incluindo a privatização de empresas estatais e redução de barreiras à concorrência. Esta dinâmica conseguiu ainda mobilizar um grande aumento da quantidade de investimentos directos do estrangeiro, que mais do que triplicou durante esses anos. Particular destaque para os provenientes das entradas dos países emergentes do Golfo e da Ásia (China e Índia). A McKinsey Quartely em Junho de 2010 chegou mesmo a publicar um artigo de Paul Collier, professor de economia na Universidade de Oxford, onde o mesmo trouxe o caso do Investimento em África, referindo no título de que o continente estava a crescer muito mais rapidamente do que as nações da OCDE e que se podia eventualmente estar à beira de um regresso às fortunas.
Países ricos em recursos naturais como a Nigéria e a África do Sul, têm sido na década os que mais receberão IDE (investimento directo estrangeiro), embora hoje no nosso grande continente começa a emergir novos padrões, ainda que recentes e provenientes dos últimos cinco anos. No leste e norte da África, por exemplo, novos investimentos crescem em sectores que não carecem de recursos naturais, como o turismo, manufactura, serviços financeiros, telecomunicações e construção. Além disso, um segundo nível de países menores, mas de alto desempenho, incluindo o Gana, Namíbia e Zâmbia, têm merecido particular atenção dos investidores. Esta dinâmica África da última década, em resume, tem assistido a uma diversificação do IDE, em paralelo com uma série de reformas estruturais levados a cabo pelos governos Africanos, para tornar suas economias mais atraentes e competitivas. Naturalmente, para sustentar os fluxos de IDE os governos devem buscar medidas para o reforço dos quadros de governação e legal, construção de mercados financeiros, investimento em capital humano, desenvolver as suas infra-estruturas e aprofundar a integração regional. Com estes dados não evito dizer que também seja verdade de que o continente foi atingido pela Crise Financeira global, tanto que o seu crescimento em 2009 desacelerou para 2,5%. Mas, posso afirmar que a história do mundo global tem feito com que África evite a recessão. Embora também seja verdade de que o impacto da crise esteja a variar de entre regiões e países, a verdade é que no geral o declínio do crescimento está sendo menos grave do que o esperado. Por exemplo, em contraste com outras partes do continente, a África Austral tem sido directamente afectada pela crise global, porque os seus países, embora ricos em recursos, estão dependentes das exportações e sujeito ao "efeito vizinhança" que emana da África do Sul. Acredita-se que muitos desses países devem recuperar brevemente com a recuperação dos commodities e melhorias nos mercados financeiros. O grupo de países de rendimento médio do norte da África, apesar de sua estreita integração com a União Europeia, tem-se saído melhor, em parte devido à sua menor contas de capital aberto e economias mais diversificadas.
Também é verdade de que os formuladores das políticas africanas têm resistido as tendências proteccionistas que muitas vezes acompanham uma crise desta magnitude. Em vez disso, a maioria dos países têm mantido uma postura macroeconómica prudente durante esta crise actual, evitando as medidas proteccionistas, e em vários casos, acelerando as reformas para criar um clima favorável ao investimento. Alguns países, como Botswana, Gana Cabo Verde e Seicheles, aproveitam dos pacotes de ajuda financeira para ajustar as suas economias de forma significativa. Embora tendo resistido à crise, o continente enfrenta o desafio de voltar rapidamente ao crescimento elevado e sustentável. Em Março de 2010, o Banco Africano de Desenvolvimento fez a previsão de 4,5% de crescimento do PIB real para África em 2010 e 5,2% em 2011, em linha com a recuperação global. Embora essas taxas de crescimento estejam ainda abaixo dos níveis pré-crise, a recuperação tem uma base larga, com mais de 15 países projectado para crescer por cima de 5% em 2010. Resta ver se a recuperação nas economias avançadas, é de facto um factor fundamental na recuperação da própria África. Por isso, é ainda mais importante que os países Africano criem hoje um clima económico e de negócios para atrair criar fluxos de capital privado internos e estáveis.
Embora exista um crescimento da África, quando medido em termos de crescimento do PIB percapita, ela é mais moderada. A pergunta chave é quando é que a remuneração do povo africano atingirá níveis comparáveis aos países mais ricos? Quando é que teremos um crescimento sustentável que nos permita reduzir as enormes disparidades de remuneração e de produtividade, face às economias mais avançadas? Infra-estrutura pobre é um grande impedimento. Um estudo recente de 24 países, conduzido pelo Banco Africano de Desenvolvimento, estimou o custo total da lacuna de infra-estruturas em África para a próxima década, no valor de 93 mil milhões de dólares americanos por ano, com cerca de 40% no sector de energia. Descobriu-se ainda de que o continente tem a mais fraca infra-estrutura do planeta, e que os Africanos, em alguns países, estão a pagar o dobro por serviços básicos, em comparação aos cidadãos de outros continentes. Por outro lado, apesar de algum progresso, na criação de um ambiente para desenvolvimento do sector privado, mais pode ser feito para que se atinja um crescimento importante, principalmente com relação à criação de bases de capital nacionais.
Dadas as fraquezas dos países Africanos, e as falhas de mercado, o desenvolvimento de um sector privado vibrante não pode ser deixado só ao livre mercado. Experiência mundial tem mostrado a sua importância. O apoio institucional dos governos Africanos não pode ser apenas no ambiente de negócios, pois, esta e a sua melhoria é apenas uma das muitas outras condições para o crescimento do sector privado. Países como o nosso, a semelhança de outros Africanos, têm pequenas bases produtivas. O desenvolvimento do sector privado envolve muitas vezes a entrada em actividades completamente novas, inovadoras, que naturalmente incorrem a grandes investimentos e custos fixos, assim como riscos. Os agentes privados não podem os assumir sozinhos. Em África, ou desenvolvemos uma Política industrial que visa incentivar as actividades mais rentáveis e flexibilizar as restrições ao empreendedorismo produtivo nacionais, ou incorremos à nova vaga dos Descobrimentos, atando-nos como reféns do capital instalado, que impacta na descolagem dos nossos países, pela via da ausência de sectores privados, nacionais.
O Banco Africano de Desenvolvimento elevou a sua capacidade para financiar empresas privadas e parcerias público-privadas. Durante os últimos anos, aprovou o financiamento não soberano, incluindo cerca de 15% no capital próprio, para um total de USD $ 4,7 bilhões, para projectos, principalmente, em serviços de infra-estrutura e financeiros. África continua a oferecer inúmeras oportunidades para os investidores no mundo pós-crise, com as opções tão variadas quanto os países.
Em Cabo Verde, Investidores? Eu que o diga.
Wednesday, January 18, 2012
Made in Crise
Grow with us!
O processo da globalização das actividades económicas, cultural e social, em todo o mundo é hoje irreversível. Este decurso, tem provocado uma crescente proximidade entre os povos, pois, as pessoas movem-se ao longo dos países, em função do seu projecto de vida, e as empresas têm grande facilidade em deslocalizar-se, de acordo com os seus objectivos e das condições que determinado pais ou região lhes possa proporcionar. Constata-se também que o mundo inteiro escolhe os seus produtos para consumo em função dos seus valores, garantias pessoais e preferências.
Cabo Verde, como integrante do globo, assim como qualquer outro, terá de se obrigar a dar vazão à necessidade que os países têm de construir uma orientação sólida, capaz de transmitir uma imagem mobilizadora, coerente e favorável aos seus diversos públicos. Venham a ser eles financiadores, investidores e bancos, governos estrangeiros, empresas multinacionais, cidadãos nacionais e estrangeiros. Para abordar esta problemática de uma forma sistematizada, é necessário que numa primeira instância o país conheça as suas limitações e potencialidades, e que fixe objectivos claros, de forma a poder delinear uma estratégia e um modelo de desenvolvimento sustentado e diversificado.
Será que hoje todos os actores nacionais estão em consenso quanto à visão do nosso país para o que se pretende que sejamos daqui a 20 ou 30 anos? Quais são os sectores de actividade em que se pretende apostar, de forma a diversificar e mitigar riscos? Que qualificações se pretendem desenvolver nas pessoas, para sustentar estas apostas? Que infra-estruturas são necessárias e qual o calendário de evolução das prioridades? Qual a melhor aposta que cada região pode fazer? De alguma forma as respostas e algum deste trabalho podem ser encontrados no documento de Crescimento e Redução da Pobreza, compilado na Agenda de Transformação Económica de Cabo Verde, desenvolvido em 2001. Este documento visa essencialmente estribar as bases para o aproveitamento das oportunidades e vantagens comparativas de Cabo Verde para a consolidação de vantagens Competitivas. Por isso, foca-se principalmente na Localização e no Mar.
Pode até ser legítimo questionar-se o modo como a Agenda foi construída, assim como, eventuais, necessidades de um consenso mais largo e a nível nacional. No entanto, no meu entender, superando essas eventualidades, a questão de fundo que se impõe é o como materializar esta transformação? Como alargar e cimentar as bases e os pilares da Economia Nacional? Tudo, para que efectivamente o país fazer o “take off” com a rota devidamente traçada e aprovada.
É certo de que as ideias centrais da Estratégia de Transformação de Cabo Verde propõem consolidar a economia de mercado, a ser liderada pelo sector privado, modernizar a sociedade e as instituições, e sobretudo, construir uma Nação globalmente competitiva. Pretensões com ênfase em eixos de desenvolvimento traçados, como são o Turismo; Hub transporte: Marítimo e Aéreo; Fishing e Serviços Ligados Mar; Centro de Serviços: IT e Finance. Tudo para se alargar a base produtiva do país, criar vantagens competitivas em novos sectores, particularmente a nível dos serviços, favorecer as oportunidades para o emprego e para aumentar a capacidade produtiva e a participação no mercado global.
Por outro lado, estas nossas pretensões esvaziam-se muito na realidade crua do empresariado nacional e face às suas várias limitações, principalmente ao nível da sua assumpção enquanto investidores e limitadas capacidades financeiras. Por isso, a minha proposta para um plano que denomino de Grow with us. Este estriba-se na realidade de que Cabo Verde hoje, com a graduação da lista dos Países Menos Avançados para Rendimento Médio, a adesão do país à Organização Mundial do Comercio, a assinatura do Acordo de Parceria Especial com a União Europeia e a incessante procura de maior integração regional na CEDEAO, deve assumir e adoptar um posicionamento claro, verdadeiro e transparente, que nos conduza consequentemente a numa nova fase de desenvolvimento e mobilize investimentos e realizações de acordo com o rumo traçado e validado, isto é, de acordo com a Agenda de Transformação de Cabo Verde.
Somos um povo tradicionalmente activo, mas nem por isso pró-activos. É preciso que se dêem passos para a concretização dos discursos e estratégias, através de uma comunicação clara, simples e directa, relativamente ao que se pretende fazer deste país.
A semelhança do exemplo da Polónia, que hoje emerge como um forte mercado, ao lado de outros países emergentes, proponho a orientação de instituições como a Cabo Verde Investimento, em articulação com Embaixadas e Consulados, para a mobilização de uma campanha forte a nível internacional, relativo a Agenda de Transformação Económica do país, no intuito de que a atracção do investimento externo se faça lá onde necessário e fundamental para a política de Desenvolvimento do País. Esta campanha deve mobilizar todos os suportes necessários, mas com a contabilização clara e transparente dos seus custos, objectivos a atingir, e estimativas de resultados. O mais importante é que o discurso seja elaborado na óptica das possibilidades de investimentos em Cabo Verde, apelando os potenciais investidores externos e virem crescer com o País, daí o slogan Grow with us. Cabo Verde, pode desta forma orientar os investimentos externos para os vectores que traçou como fundamental para o seu crescimento, assim como construir uma verdadeira imagem de marca internacional como fonte de oportunidade para o mundo. Ao contrário de estarmos a mercê dos que por cá têm caído.
Esta acção, deve ser fortemente acompanhado pelas secções consulares e embaixadas em todo o mundo, criando uma verdadeira onda de divulgação da nossa Agenda de Transformação e Desenvolvimento, no mundo e a consequente atracção de investimentos externos para sua materialização. A condução deste esforço pode ser direccionada por área e mercados potenciais de financiadores, com equilíbrio territorial, regional e diversificação suficiente para a mitigação de riscos sistémicos.
A Educação, formação profissional, normativos e outros, deveriam ser consequentes deste e não feitos à partida sem contabilização dos resultados espectáveis face aos custos que absorvem. Hoje, se não medimos, não estamos a fazer nada, pois não saberemos onde estamos e onde chegamos.
O processo da globalização das actividades económicas, cultural e social, em todo o mundo é hoje irreversível. Este decurso, tem provocado uma crescente proximidade entre os povos, pois, as pessoas movem-se ao longo dos países, em função do seu projecto de vida, e as empresas têm grande facilidade em deslocalizar-se, de acordo com os seus objectivos e das condições que determinado pais ou região lhes possa proporcionar. Constata-se também que o mundo inteiro escolhe os seus produtos para consumo em função dos seus valores, garantias pessoais e preferências.
Cabo Verde, como integrante do globo, assim como qualquer outro, terá de se obrigar a dar vazão à necessidade que os países têm de construir uma orientação sólida, capaz de transmitir uma imagem mobilizadora, coerente e favorável aos seus diversos públicos. Venham a ser eles financiadores, investidores e bancos, governos estrangeiros, empresas multinacionais, cidadãos nacionais e estrangeiros. Para abordar esta problemática de uma forma sistematizada, é necessário que numa primeira instância o país conheça as suas limitações e potencialidades, e que fixe objectivos claros, de forma a poder delinear uma estratégia e um modelo de desenvolvimento sustentado e diversificado.
Será que hoje todos os actores nacionais estão em consenso quanto à visão do nosso país para o que se pretende que sejamos daqui a 20 ou 30 anos? Quais são os sectores de actividade em que se pretende apostar, de forma a diversificar e mitigar riscos? Que qualificações se pretendem desenvolver nas pessoas, para sustentar estas apostas? Que infra-estruturas são necessárias e qual o calendário de evolução das prioridades? Qual a melhor aposta que cada região pode fazer? De alguma forma as respostas e algum deste trabalho podem ser encontrados no documento de Crescimento e Redução da Pobreza, compilado na Agenda de Transformação Económica de Cabo Verde, desenvolvido em 2001. Este documento visa essencialmente estribar as bases para o aproveitamento das oportunidades e vantagens comparativas de Cabo Verde para a consolidação de vantagens Competitivas. Por isso, foca-se principalmente na Localização e no Mar.
Pode até ser legítimo questionar-se o modo como a Agenda foi construída, assim como, eventuais, necessidades de um consenso mais largo e a nível nacional. No entanto, no meu entender, superando essas eventualidades, a questão de fundo que se impõe é o como materializar esta transformação? Como alargar e cimentar as bases e os pilares da Economia Nacional? Tudo, para que efectivamente o país fazer o “take off” com a rota devidamente traçada e aprovada.
É certo de que as ideias centrais da Estratégia de Transformação de Cabo Verde propõem consolidar a economia de mercado, a ser liderada pelo sector privado, modernizar a sociedade e as instituições, e sobretudo, construir uma Nação globalmente competitiva. Pretensões com ênfase em eixos de desenvolvimento traçados, como são o Turismo; Hub transporte: Marítimo e Aéreo; Fishing e Serviços Ligados Mar; Centro de Serviços: IT e Finance. Tudo para se alargar a base produtiva do país, criar vantagens competitivas em novos sectores, particularmente a nível dos serviços, favorecer as oportunidades para o emprego e para aumentar a capacidade produtiva e a participação no mercado global.
Por outro lado, estas nossas pretensões esvaziam-se muito na realidade crua do empresariado nacional e face às suas várias limitações, principalmente ao nível da sua assumpção enquanto investidores e limitadas capacidades financeiras. Por isso, a minha proposta para um plano que denomino de Grow with us. Este estriba-se na realidade de que Cabo Verde hoje, com a graduação da lista dos Países Menos Avançados para Rendimento Médio, a adesão do país à Organização Mundial do Comercio, a assinatura do Acordo de Parceria Especial com a União Europeia e a incessante procura de maior integração regional na CEDEAO, deve assumir e adoptar um posicionamento claro, verdadeiro e transparente, que nos conduza consequentemente a numa nova fase de desenvolvimento e mobilize investimentos e realizações de acordo com o rumo traçado e validado, isto é, de acordo com a Agenda de Transformação de Cabo Verde.
Somos um povo tradicionalmente activo, mas nem por isso pró-activos. É preciso que se dêem passos para a concretização dos discursos e estratégias, através de uma comunicação clara, simples e directa, relativamente ao que se pretende fazer deste país.
A semelhança do exemplo da Polónia, que hoje emerge como um forte mercado, ao lado de outros países emergentes, proponho a orientação de instituições como a Cabo Verde Investimento, em articulação com Embaixadas e Consulados, para a mobilização de uma campanha forte a nível internacional, relativo a Agenda de Transformação Económica do país, no intuito de que a atracção do investimento externo se faça lá onde necessário e fundamental para a política de Desenvolvimento do País. Esta campanha deve mobilizar todos os suportes necessários, mas com a contabilização clara e transparente dos seus custos, objectivos a atingir, e estimativas de resultados. O mais importante é que o discurso seja elaborado na óptica das possibilidades de investimentos em Cabo Verde, apelando os potenciais investidores externos e virem crescer com o País, daí o slogan Grow with us. Cabo Verde, pode desta forma orientar os investimentos externos para os vectores que traçou como fundamental para o seu crescimento, assim como construir uma verdadeira imagem de marca internacional como fonte de oportunidade para o mundo. Ao contrário de estarmos a mercê dos que por cá têm caído.
Esta acção, deve ser fortemente acompanhado pelas secções consulares e embaixadas em todo o mundo, criando uma verdadeira onda de divulgação da nossa Agenda de Transformação e Desenvolvimento, no mundo e a consequente atracção de investimentos externos para sua materialização. A condução deste esforço pode ser direccionada por área e mercados potenciais de financiadores, com equilíbrio territorial, regional e diversificação suficiente para a mitigação de riscos sistémicos.
A Educação, formação profissional, normativos e outros, deveriam ser consequentes deste e não feitos à partida sem contabilização dos resultados espectáveis face aos custos que absorvem. Hoje, se não medimos, não estamos a fazer nada, pois não saberemos onde estamos e onde chegamos.
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